Ouro não para de surpreender os mercados. Em 2025, atingiu um record histórico com um crescimento de 64%, a melhor performance anual desde 1979, e agora os principais bancos de investimento estão a elevar ainda mais as estimativas de preços futuros. Mas o que está realmente a impulsionar este rally aparentemente imparável?
O impulso dos últimos meses: quando a geopolítica reacende as compras
A procura por bens refugio voltou a ganhar destaque nas últimas semanas. Após os desenvolvimentos recentes na Venezuela, com as tensões que reacenderam a incerteza nos mercados financeiros e energéticos, os investidores procuraram novamente refúgio no metal precioso. Segundo Alexander Zumpfe, trader de metais preciosos na Heraeus Alemanha, estes eventos inesperados somam-se às preocupações já existentes sobre geopolítica, abastecimento energético e política monetária, criando um efeito multiplicador na procura.
É precisamente em momentos como estes que o valor defensivo do ouro se revela com clareza. Quando as taxas de juro permanecem baixas, o custo de oportunidade de manter ativos não remuneratórios diminui, tornando o metal precioso ainda mais atraente como reserva de valor. A Morgan Stanley, no seu relatório de 5 de janeiro, reconheceu explicitamente que os eventos na Venezuela podem reforçar ainda mais esta atratividade, embora formalmente o banco ainda não tenha incorporado tais desenvolvimentos nas suas previsões oficiais.
Três cenários de preço: as previsões do ouro até 2026
As estimativas das principais instituições financeiras divergem ligeiramente, mas todas convergem para um aumento significativo. A Morgan Stanley prevê que o ouro atingirá os 4800 dólares por onça até ao quarto trimestre de 2026, uma revisão para cima em relação à estimativa de outubro de 2025 (então fixada em 4400 dólares). A escalada indica como o quadro macroeconómico está a evoluir rapidamente a favor do metal.
Ainda mais otimista é a JPMorgan, que reviu recentemente as suas perspetivas, prevendo 5000 dólares por onça no mesmo período, com um objetivo de 6000 dólares a longo prazo. Natasha Kaneva, responsável global pela estratégia de matérias-primas na JPMorgan, destacou que, embora o rally do ouro não tenha sido linear, os fatores que o impulsionam ainda não se esgotaram.
A ING também alinha-se a este cenário positivo. No relatório de 6 de janeiro, o banco reafirma que as compras contínuas dos bancos centrais e as expectativas de novas reduções das taxas da Federal Reserve continuarão a sustentar o metal precioso.
Os verdadeiros motores da previsão do ouro: dólar fraco, compras institucionais e bancos centrais
O que está realmente a alimentar esta corrida de alta? A Morgan Stanley identifica uma combinação de fatores estruturais. O ciclo de redução das taxas da Federal Reserve constitui a base principal: taxas mais baixas reduzem o rendimento dos títulos e aumentam a atratividade de ativos não remuneratórios como o ouro. A isto soma-se o enfraquecimento do dólar, que caiu cerca de 9% em 2025, a pior performance anual desde 2017. Um dólar mais fraco torna o ouro menos caro para os compradores internacionais, estimulando a procura global.
Mas o fenómeno mais relevante é provavelmente a mudança comportamental dos bancos centrais. Estes aumentaram significativamente as suas compras de ouro, ao ponto de a quota de ouro nas reservas mundiais ter ultrapassado, pela primeira vez desde 1996, a de títulos do Tesouro dos EUA. Como observou Amy Gower, estratega de metais e matérias-primas na Morgan Stanley, os investidores já não percebem o ouro apenas como proteção contra a inflação, mas como um barómetro sensível às políticas monetárias e aos riscos geopolíticos.
Os ETFs apoiados por ouro físico registaram fluxos de capital recorde, sinalizando uma adesão transversal tanto de investidores institucionais como de retalho. “Até os compradores não profissionais juntaram-se à corrida”, escrevem os analistas da Morgan Stanley, destacando como as expectativas de um dólar ainda mais debilitado e a tendência mais ampla de desassociação de ativos denominados em dólares estão a amplificar a procura.
Prata e cobre: os outros metais a ter de olho em 2026
Embora o ouro continue a ser a estrela polar, a Morgan Stanley não descura o desempenho de outros metais. A prata registou em 2025 um crescimento extraordinário de 147%, a mais forte alguma vez documentada, alimentada por uma combinação de carências estruturais de oferta, procura industrial e fluxos de investimento. Os analistas da ING descrevem as perspetivas até 2026 como “positivas”, graças à forte procura proveniente de painéis solares e tecnologias para baterias.
No que diz respeito aos metais básicos, a Morgan Stanley mantém uma visão construtiva sobre alumínio e cobre. O alumínio escasseia fora da Indonésia, enquanto novas compras americanas impulsionam os preços para cima. O cobre na London Metal Exchange atingiu esta semana o máximo histórico de 13.387,50 dólares por tonelada, sustentado pelas importações americanas e por interrupções persistentes no abastecimento das minas. O níquel recebe atenção pelos riscos de interrupção na Indonésia, embora o banco avise que grande parte desses riscos já poderá estar precificada pelo mercado.
O quadro global: o que significa para os investidores
A previsão de ouro a 4800-5000 dólares não é uma mera extrapolação casual, mas o resultado de uma convergência de teses macroeconómicas bem definidas: taxas baixas, enfraquecimento cambial, tensões geopolíticas persistentes e diversificação estratégica dos bancos centrais. Estes fatores estruturais, ao contrário dos movimentos especulativos de curto prazo, têm a capacidade de sustentar uma subida prolongada.
Como sintetizou a Morgan Stanley, a incerteza comercial e os riscos geopolíticos estão a criar um ambiente onde a procura por bens refugio permanece imprescindível. Neste contexto, a previsão do ouro para os próximos meses representa não apenas uma projeção numérica, mas uma declaração de confiança nas propriedades defensivas do metal precioso numa era de profundas transformações monetárias e geopolíticas.
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Qual é realmente o valor do ouro? As previsões para 2026 de Morgan Stanley, JPMorgan e o novo cenário geopolítico
Ouro não para de surpreender os mercados. Em 2025, atingiu um record histórico com um crescimento de 64%, a melhor performance anual desde 1979, e agora os principais bancos de investimento estão a elevar ainda mais as estimativas de preços futuros. Mas o que está realmente a impulsionar este rally aparentemente imparável?
O impulso dos últimos meses: quando a geopolítica reacende as compras
A procura por bens refugio voltou a ganhar destaque nas últimas semanas. Após os desenvolvimentos recentes na Venezuela, com as tensões que reacenderam a incerteza nos mercados financeiros e energéticos, os investidores procuraram novamente refúgio no metal precioso. Segundo Alexander Zumpfe, trader de metais preciosos na Heraeus Alemanha, estes eventos inesperados somam-se às preocupações já existentes sobre geopolítica, abastecimento energético e política monetária, criando um efeito multiplicador na procura.
É precisamente em momentos como estes que o valor defensivo do ouro se revela com clareza. Quando as taxas de juro permanecem baixas, o custo de oportunidade de manter ativos não remuneratórios diminui, tornando o metal precioso ainda mais atraente como reserva de valor. A Morgan Stanley, no seu relatório de 5 de janeiro, reconheceu explicitamente que os eventos na Venezuela podem reforçar ainda mais esta atratividade, embora formalmente o banco ainda não tenha incorporado tais desenvolvimentos nas suas previsões oficiais.
Três cenários de preço: as previsões do ouro até 2026
As estimativas das principais instituições financeiras divergem ligeiramente, mas todas convergem para um aumento significativo. A Morgan Stanley prevê que o ouro atingirá os 4800 dólares por onça até ao quarto trimestre de 2026, uma revisão para cima em relação à estimativa de outubro de 2025 (então fixada em 4400 dólares). A escalada indica como o quadro macroeconómico está a evoluir rapidamente a favor do metal.
Ainda mais otimista é a JPMorgan, que reviu recentemente as suas perspetivas, prevendo 5000 dólares por onça no mesmo período, com um objetivo de 6000 dólares a longo prazo. Natasha Kaneva, responsável global pela estratégia de matérias-primas na JPMorgan, destacou que, embora o rally do ouro não tenha sido linear, os fatores que o impulsionam ainda não se esgotaram.
A ING também alinha-se a este cenário positivo. No relatório de 6 de janeiro, o banco reafirma que as compras contínuas dos bancos centrais e as expectativas de novas reduções das taxas da Federal Reserve continuarão a sustentar o metal precioso.
Os verdadeiros motores da previsão do ouro: dólar fraco, compras institucionais e bancos centrais
O que está realmente a alimentar esta corrida de alta? A Morgan Stanley identifica uma combinação de fatores estruturais. O ciclo de redução das taxas da Federal Reserve constitui a base principal: taxas mais baixas reduzem o rendimento dos títulos e aumentam a atratividade de ativos não remuneratórios como o ouro. A isto soma-se o enfraquecimento do dólar, que caiu cerca de 9% em 2025, a pior performance anual desde 2017. Um dólar mais fraco torna o ouro menos caro para os compradores internacionais, estimulando a procura global.
Mas o fenómeno mais relevante é provavelmente a mudança comportamental dos bancos centrais. Estes aumentaram significativamente as suas compras de ouro, ao ponto de a quota de ouro nas reservas mundiais ter ultrapassado, pela primeira vez desde 1996, a de títulos do Tesouro dos EUA. Como observou Amy Gower, estratega de metais e matérias-primas na Morgan Stanley, os investidores já não percebem o ouro apenas como proteção contra a inflação, mas como um barómetro sensível às políticas monetárias e aos riscos geopolíticos.
Os ETFs apoiados por ouro físico registaram fluxos de capital recorde, sinalizando uma adesão transversal tanto de investidores institucionais como de retalho. “Até os compradores não profissionais juntaram-se à corrida”, escrevem os analistas da Morgan Stanley, destacando como as expectativas de um dólar ainda mais debilitado e a tendência mais ampla de desassociação de ativos denominados em dólares estão a amplificar a procura.
Prata e cobre: os outros metais a ter de olho em 2026
Embora o ouro continue a ser a estrela polar, a Morgan Stanley não descura o desempenho de outros metais. A prata registou em 2025 um crescimento extraordinário de 147%, a mais forte alguma vez documentada, alimentada por uma combinação de carências estruturais de oferta, procura industrial e fluxos de investimento. Os analistas da ING descrevem as perspetivas até 2026 como “positivas”, graças à forte procura proveniente de painéis solares e tecnologias para baterias.
No que diz respeito aos metais básicos, a Morgan Stanley mantém uma visão construtiva sobre alumínio e cobre. O alumínio escasseia fora da Indonésia, enquanto novas compras americanas impulsionam os preços para cima. O cobre na London Metal Exchange atingiu esta semana o máximo histórico de 13.387,50 dólares por tonelada, sustentado pelas importações americanas e por interrupções persistentes no abastecimento das minas. O níquel recebe atenção pelos riscos de interrupção na Indonésia, embora o banco avise que grande parte desses riscos já poderá estar precificada pelo mercado.
O quadro global: o que significa para os investidores
A previsão de ouro a 4800-5000 dólares não é uma mera extrapolação casual, mas o resultado de uma convergência de teses macroeconómicas bem definidas: taxas baixas, enfraquecimento cambial, tensões geopolíticas persistentes e diversificação estratégica dos bancos centrais. Estes fatores estruturais, ao contrário dos movimentos especulativos de curto prazo, têm a capacidade de sustentar uma subida prolongada.
Como sintetizou a Morgan Stanley, a incerteza comercial e os riscos geopolíticos estão a criar um ambiente onde a procura por bens refugio permanece imprescindível. Neste contexto, a previsão do ouro para os próximos meses representa não apenas uma projeção numérica, mas uma declaração de confiança nas propriedades defensivas do metal precioso numa era de profundas transformações monetárias e geopolíticas.