Sabe, recentemente deparei-me com uma história interessante que faz olhar de uma forma nova para a origem do bitcoin. Trata-se de uma pessoa cujo nome está quase esquecido, embora a sua contribuição para a criptografia e sistemas descentralizados seja enorme. Chamava-se Len Sassaman.



Todos sabemos que Satoshi Nakamoto, o criador do bitcoin, permaneceu um mistério. Durante anos, as pessoas construíram teorias sobre quem ele poderia ser. Uns apontam para Hal Finney, outros para Nick Szabo, terceiros para Adam Back. Mas há uma figura que, nos últimos anos, aparece cada vez mais frequentemente nas listas de candidatos prováveis — Len Sassaman.

Por que exatamente ele? Vamos esclarecer.

Primeiro, é preciso entender quem foi realmente Len Sassaman. Era um verdadeiro cyberpunk — no sentido pleno da palavra. Inteligente, destemido, idealista. Desde criança, foi autodidata em criptografia e protocolos. Quando tinha apenas 18 anos, já tinha entrado no Grupo de Engenharia da Internet, que desenvolvia protocolos fundamentais como TCP/IP. Imagine: um adolescente de uma pequena cidade na Pensilvânia participando na criação das bases da internet.

Na adolescência, Len foi diagnosticado com depressão. Infelizmente, a sua experiência com psiquiatras foi traumática — um atendimento que beirou a crueldade. Isso deixou uma cicatriz profunda e uma desconfiança em relação às autoridades. Mais tarde, isso se tornaria um momento importante na sua vida.

Em 1999, Len mudou-se para a Área da Baía e rapidamente se tornou uma figura central na comunidade cyberpunk. Morava com Bram Cohen, criador do BitTorrent, e participava ativamente na lendária lista de discussão dos cyberpunks — foi lá que Satoshi anunciou o bitcoin pela primeira vez. Outros hackers o lembram como alguém ao mesmo tempo genial e completamente despreocupado. Em festas cyberpunk, perseguia esquilos, e no carro carregava um cartão de “saída gratuita da prisão” para o caso de uma paragem policial.

Por trás dessa despreocupação, escondia-se um trabalho sério. Len Sassaman tornou-se um dos principais especialistas em criptografia de chave pública — a base de tudo no bitcoin. Aos 22 anos, já falava em conferências. Juntamente com o ativista de software livre Bruce Perens, fundou uma startup de criptografia. Quando essa startup faliu devido ao colapso das dotcoms, Len entrou na Network Associates e ajudou a desenvolver a criptografia PGP — aquela mesma que Satoshi mais tarde chamou de padrão para o bitcoin.

Na Network Associates, trabalhou ao lado de Hal Finney em PGP. Finney foi o segundo desenvolvedor do PGP e a primeira pessoa, além de Satoshi, a contribuir com código para o bitcoin. Era um círculo de pessoas importante, e Len Sassaman esteve no seu centro.

Mas o que é realmente interessante: Len e Finney partilhavam uma habilidade rara e atual — ambos eram desenvolvedores de remailers. Os remailers foram precursores do bitcoin, servidores especializados para envio anónimo de mensagens. Era uma infraestrutura na qual se construiu a própria rede cyberpunk. Len foi o principal desenvolvedor e operador do Mixmaster, o remailer mais conhecido da época. Também trabalhou como engenheiro de sistemas no projeto de privacidade Anonymizer.

Sabem o que é curioso? A arquitetura do bitcoin é surpreendentemente semelhante à arquitetura do remailer — só que, em vez de mensagens, os nós transmitem dados de transações. Não é coincidência. Pessoas que desenvolveram remailers foram as primeiras a entender a necessidade de criptomoedas. Operaram esses sistemas por conta própria, o que criou problemas de escalabilidade e spam. Foi dessa necessidade que nasceu a ideia de dinheiro digital.

Em 2004, Len conseguiu o emprego dos seus sonhos — investigador e candidato a doutor na equipa de pesquisa COSIC, em Leuven, Bélgica. O seu orientador foi David Chaum, considerado o pai da moeda digital. Chaum inventou a criptomoeda ainda em 1983, criou o conceito de blockchain em 1982 e lançou o Digicash — o primeiro sistema de dinheiro eletrônico. Poucos podem dizer que trabalharam diretamente com Chaum. Len Sassaman pôde.

Na COSIC, Len acumulou um currículo notável: 45 publicações, 20 cargos em comités de conferências. Seu projeto principal — Pynchon Gate, criado em parceria com Bram Cohen — foi uma evolução da tecnologia do remailer. Com o trabalho no Pynchon Gate, Len foi progressivamente focando na resolução do problema bizantino — um dos maiores obstáculos nas primeiras redes P2P. Foi exatamente esse problema que Satoshi resolveu mais tarde com o blockchain.

O período de desenvolvimento do bitcoin coincide com o tempo em que Len Sassaman trabalhava na COSIC. Morava na Bélgica, participava em conferências de criptografia financeira, era membro de comités. Estava no centro de tudo o que acontecia na comunidade criptográfica.

Agora, preste atenção às coincidências estranhas. Satoshi usava inglês britânico — palavras como “damn”, “flat”, “mathematics”, escrita de datas no formato dia/mês/ano. Mas mencionava o euro, não a libra. O bloco génesis contém um cabeçalho do The Times de 3 de janeiro de 2009 — jornal que circulava no Reino Unido e na Europa. E Len Sassaman era americano, vivia na Europa, e também usava inglês britânico, exatamente como Satoshi.

Análise do histórico de commits de Satoshi mostra que ele trabalhava à noite, no fuso horário europeu. A atividade aumentava durante férias de verão e inverno, mas caía durante exames — como se fosse um professor ou estudante. Se olharmos para o histórico de atividade de Len, os horários de publicação e codificação coincidem muito com a atividade noturna de Satoshi.

Outra pista: o código de Satoshi foi descrito como “brilhante, mas não rigoroso”, demonstrando uma arquitetura de segurança avançada e um profundo entendimento da criptografia acadêmica. É exatamente esse estilo que caracteriza Len Sassaman — alguém com raízes profundas na criptografia acadêmica, através do trabalho com Chaum, e ao mesmo tempo um hacker prático, que desenvolvia código real.

Dan Kaminsky, conhecido pesquisador de segurança, ao analisar o código de Satoshi, tentou realizar testes de penetração com nove vulnerabilidades. Mas, toda vez que encontrava uma falha, já havia uma linha de código que a prevenia. Kaminsky ficou impressionado. Por coincidência, Len Sassaman mais tarde tornou-se coautor de Kaminsky em um artigo sobre métodos de ataque à infraestrutura de chaves públicas.

Len viveu e trabalhou com Bram Cohen, criador do BitTorrent. Entre 2000 e 2002, Bram desenvolveu o MojoNation — uma rede P2P revolucionária, com sua própria moeda digital em forma de tokens Mojo. Foi uma das primeiras moedas digitais públicas. Os ficheiros eram encriptados, codificados em “blocos”, carregados na rede distribuída e registados num registo público — muito semelhante ao blockchain. Apesar de MojoNation ter acabado por fracassar devido à hiperinflação, Satoshi claramente estudou esse sistema e deliberadamente criou o bitcoin para evitar o mesmo destino.

Em 2002, Len e Bram tornaram-se cofundadores da conferência CodeCon, dedicada a projetos com código real e funcional. No CodeCon 2005, Hal Finney demonstrou o RPOW — sistema de provas de trabalho reutilizáveis, através de um cliente modificado do BitTorrent. Era um protótipo de moeda digital P2P. Na primeira edição do CodeCon, também foram apresentados HashCash de Adam Back e Mnet — sucessor descentralizado do MojoNation.

Hal Finney, Adam Back, Len Sassaman — todos faziam parte da mesma comunidade, todos trabalhavam nos componentes que mais tarde formariam o bitcoin. Conheciam-se, colaboravam, discutiam as mesmas questões.

E agora, a parte mais triste da história. Em 3 de julho de 2011, Len Sassaman cometeu suicídio tragicamente, aos 31 anos. Lutava contra uma depressão prolongada e distúrbios neurológicos funcionais. Após um incidente em 2006, começou a ter ataques cada vez mais graves. Sentia a estigma, tinha medo de que a sua saúde deteriorada acabasse com o seu trabalho e decepcionasse as pessoas de quem gostava. Apesar disso, continuou a trabalhar, a escrever artigos, até a dar aulas na Universidade de Dartmouth. Poucos sabiam o quão grave era o seu estado.

Isto coincide com o desaparecimento de Satoshi. Dois meses antes da morte de Len, Satoshi enviou a última mensagem: “Mudaram-se para outros assuntos, e talvez eu não esteja mais por perto”. Após 169 commits de código e 539 publicações, Satoshi simplesmente desapareceu.

Perdemos demasiados talentos por causa de suicídios. Aaron Schwartz, Gine Kan, Ilya Zhytomirski, James Dolan. Todos vítimas de uma epidemia de vergonha e depressão que prejudica o próprio progresso tecnológico. Imagine se o criador do bitcoin tivesse morrido antes de concluir o projeto? O que poderiam ter criado se tivessem recebido cuidado e respeito?

Quem quer que fosse Satoshi, sem dúvida, apoiou-se nos ombros de gigantes. O bitcoin é o resultado acumulado de décadas de investigação e discussão na comunidade cyberpunk. Len Sassaman, certamente, contribuiu indiretamente para isso. Mas a questão principal permanece: quem escreveu o código, lançou o primeiro nó e publicou o conteúdo sob o pseudónimo Satoshi?

Para sintetizar e implementar todas as ideias em que o bitcoin se baseia, essa pessoa ou equipa devia possuir uma experiência única, abrangendo múltiplas áreas: infraestrutura de chaves públicas, criptografia académica, projeto de redes P2P, arquitetura de segurança, tecnologias de privacidade. Devia ter raízes profundas na comunidade cyberpunk e ligações sólidas com figuras-chave. E precisava de uma convicção ideológica e espírito hacker para construir anonimamente um sistema que, até então, permanecia na esfera da teoria.

Ao olhar para a vida de Len, vejo todas essas características. Acredito que Len Sassaman foi provavelmente um dos participantes diretos na criação do bitcoin. Talvez até o principal.

Não é apenas uma teoria. É uma reflexão sobre os talentos que perdemos, as ideias que ficaram por dizer, os sistemas que ficaram por construir. Len Sassaman foi um cyberpunk na sua forma mais pura — alguém que acreditava que a criptografia e a descentralização poderiam proteger a liberdade. Dedicar a sua vida a essa ideia.

Em cada nó do bitcoin está embutido um epitáfio — um tributo a Len Sassaman. Pode ser coincidência, mas é uma coincidência que parece demasiado adequada. Len foi quase imortalizado na blockchain, num sistema que encarna tudo em que ele acreditava.

Devemos lembrar dessas pessoas. Não só pelo que criaram, mas por quem eram. Pela sua luta, pelos seus ideais, pela sua humanidade. Porque a tecnologia não é apenas código e algoritmos. São pessoas. E, ao perdermos pessoas assim, perdemos não só o seu trabalho, mas também a possibilidade de um futuro que poderiam ter criado.
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