Eu acompanho a história de Janice McAfee há anos, e o que me impressionou recentemente foi a dura realidade da sua situação. Dois anos após a morte de John McAfee na prisão em Barcelona, ela ainda busca respostas. O que me interessa é como uma mulher acaba fazendo pequenos trabalhos para sobreviver depois de ter sido casada com alguém que valia mais de 100 milhões de dólares.



Quando olhamos para os números, é surrealista. John acumulou essa fortuna vendendo ações da sua empresa de antivírus nos anos 90, mas no momento da sua morte, as estimativas falavam de apenas 4 milhões de dólares. Em 2019, ele gritava aos quatro ventos que não tinha nada, que não podia pagar a multa de 25 milhões exigida. Depois, foi preso por fraude fiscal, as autoridades afirmando que ele tinha ganho 11 milhões promovendo criptomoedas. Janice McAfee explicou-me que o marido não deixou testamento, nem herança. Sem dinheiro. Nada.

O que realmente me incomoda é o que ela diz sobre as circunstâncias da morte. Ela fala todos os dias com John antes de sua morte, e de repente, chega uma ordem de extradição. Algumas horas depois, ele é encontrado morto na sua cela. Janice duvida da versão oficial do suicídio. Ela viu os vídeos da prisão. Os médicos que tentaram a RCP sem primeiro remover a ligadura ao redor do seu pescoço. Ela tem formação de auxiliar de enfermagem, sabe que aquilo não é normal.

O que me impressiona em Janice McAfee é a sua calma diante de tudo isso. Ela não acusa ninguém diretamente. Ela apenas diz: dêem-me uma autópsia independente. 30.000 euros. Ela não tem esse dinheiro. Faz pequenos trabalhos na Espanha, escondida, protegida pela gentileza de amigos. Ela não consegue avançar realmente porque as autoridades espanholas se recusam a divulgar os resultados da autópsia oficial.

Encontrei Janice e John pessoalmente numa conferência de blockchain em Malta em 2018. O que me impressionou foi a sua presença. Enquanto John atraía a atenção de todos, Janice estava lá, serena, protegendo-o. Havia algo de zen nela, uma espécie de força tranquila. Nos tornamos amigos naquele dia, e tenho acompanhado sua trajetória desde então.

O documentário da Netflix sobre John o retratou como um fugitivo, mas Janice diz que essa não é a verdadeira história. Os jornalistas buscaram sensacionalismo ao invés de entender por que um homem como John estava disposto a se tornar um fugitivo. Por que ela o seguiu.

Hoje, Janice McAfee quer apenas uma coisa: cremar o corpo de John de acordo com seu último desejo. Seu corpo ainda está no necrotério da prisão. Ela não pede justiça, diz que a justiça não existe mais. Ela só quer saber o que realmente aconteceu. Quer poder seguir em frente.

O que me resta é uma imagem de resiliência. Uma mulher que perdeu tudo materialmente, mas que se recusa a perder a verdade. Janice McAfee merece respostas. Ela merece paz.
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